Plantas e Planetas

Na perspectiva histórica mundial encontraremos a Natureza como cenário de beleza ao longo do processo de crescimento e instalação da civilização humana. Silenciosas assistentes, principalmente as plantas e o reino vegetal, colaboraram com praticamente toda e qualquer demanda de nossa vontade e necessidade. 

Isso se fez de forma simbiótica e existencialista para a relação homem-planta desde a nossa origem. Com o passar de eras do nosso tempo, o encanto com a modernidade nos distanciou de uma relação romântica com a natureza e nos aproximou de uma fase chamada industrial idealizada como potencialmente lucrativa. Essa relação vem nos seduzindo continuamente. E assim, este namoro dos nossos tempos, progressivamente constrói uma negligência à nossa relação constitucionalmente maior e primária com a nossa morada: o planeta. Neste humor de desatenção, outro esquecimento se manifesta tristemente. Na arquitetura da era industrial, a sedutora premissa de produtividade e objetividade edifica prédios e torres que, sem organização e planejamento, diminuem o nosso céu enquanto também nos isola do contato com a Terra. Saboreamos incansavelmente as tentativas de superação de limites do intelecto e da tecnologia enquanto que com isso vamos descascando ao mesmo tempo o nosso próprio Lar. Essa relação se mostra como uma paixão sem futuro embora que o excitamento ainda nos impeça de reconhecer a ilusão.

Num tempo onde o céu era digno de ser chamado de infinito e que a terra era moldura de nossos passos, o Homem conheceu sua verdadeira paixão: as estrelas e o solo. Absolutamente nada foi mais encantador por todo o nosso tempo do que a magia da semente, a alquimia da fotossíntese, o milagre da germinação, a multicolorida frutificação e o frescor contido na seiva. Ao mesmo tempo, instintivamente o sábio demonstrava gratidão por esse momento de verdadeiro prazer com o céu e então honrava o Sol e a Lua. Na condição existencialista, esse amor não se deu de forma impositiva do superior sobre o necessitado e sim de serviço e devoção. Em silêncio, toda a obra natural era uma composição magistral formada por rimas da pauta do solo com as notas mais elevadas encontradas nas estrelas. Essa foi a definição poética que o astrônomo Johannes Kepler deixou para o nosso tempo. Uma real canção das esferas. A harmonia orbital entre os corpos celestes passou então a ser percebida na prática com a noção das estações, momento sagrado para quem planta e se alimenta do que colhe. A noção de independência, orgulho e até de vaidade do homem moderno é como uma tola sensação de que somos realmente autônomos por termos feito a “revolução verde” e aparentemente controlarmos o que queremos comer e sua quantidade. O gosto do alimento sintético sugere “nutrir” multidões e assim não se sente mais necessidade alguma de olhar pra cima e reconhecer o Sol pois acreditamos firmemente que foram nossas máquinas que as produziram. Então, toda uma geração deixa de olhar definitivamente para as estrelas, desiste de entender o eterno encanto cintilante sobre nossas cabeças para trazer a atenção para baixo, para um chão quase sempre duro e progressivamente infértil.

Em milhares de anos do nosso tempo, o homem aprendeu o manejo da terra e a arte da colheita. Paralelamente, assistindo constantes alterações naturais as plantas também aprenderam a sobreviver neste ambiente. Tanto o homem quanto a planta viviam em estado espontâneo de cumplicidade, gratidão e proteção mútua. De todas as artes que o homem conheceu neste período, uma em especial tem seu registro histórico juntamente com os próprios passos da humanidade: a astrologia. Redefina o seu conceito de astrologia enquanto contempla qual teria sido a noção que o homem sempre teve do céu e da terra. Encante-se novamente pela cena mística atemporal: o brilho das estrelas que descansam na noite para então o nascer do Sol. E enquanto esta obra se fazia no alto, outra obra se fazia dentro de cada ser vivo: metabolismo.

Na visão da medicina tradicional indiana, Ayurveda, a base para a longevidade está exatamente no processo digestivo que em essência é a arte de extrair e assimilar a energia solar/lunar que é transportada também pelo alimento. Poeticamente, médicos antigos de todas as culturas igualmente percebiam um ato mágico na fisiologia da nutrição. Uma festa celestial que se manifesta em cada célula. Assim, preservando a beleza do termo, somos unidades de Luz fornecida pelas estrelas.

A Índia parecia já reconhecer este fato cosmológico e fisiológico quando usou o termo Jyotish em sânscrito para se referir à astrologia e que significa “a ciência das luzes”. Estudar a Mãe Natureza não se limita apenas ao nosso planeta e esse é o campo de estudo da astrologia, uma arte também biológica, sagrada e milenar que originalmente estuda a vida, seu fenômeno e a correspondência em sincronicidade com o macrocosmo.

Alimento e remédio são termos verdadeiramente iguais e o entendimento de cura pela nutrição é um significativo sintoma de um resgate de nossa consciência natural. Todos os sistemas de medicinas tradicionais elegem o alimento hierarquicamente como instrumento superior de cura. Compreendendo que alimento é o resultado de um fenômeno solo-sol, entre a Terra e as estrelas, o matuto irá progressivamente identificar plantas e ervas associadas a específicas estações ao longo do ano bem como momentos ideais dentro do mesmo dia que refletiam  maior brilho, aroma e sabor para o seu plantio.

Esta arte é a sabedoria ancestral da “Assinatura Planetária das Plantas” promovida por tradições de médicos, filósofos, astrólogos/astrônomos no oriente e no ocidente. Personalidades como Paracelso e Nicholas Culpeper representam um verdadeiro marco para o pensamento ocidental enquanto que o reconhecimento da regência de determinadas estrelas e planetas sobre o alimento e ervas na Índia, por exemplo, sempre foi algo que naturalmente incorporava o conhecimento tradicional da astrologia.

Plantas eram usadas como símbolos e arquétipos para explicar as qualidades básicas de constelações e planetas e ao mesmo tempo ervas medicinais eram selecionadas como potencialmente mais apropriadas para uma enfermidade ou outra que estaria sob a regência de um determinado planeta. Esse conceito da regência é vivo e prático e usamos diariamente numa ação de pensamento automático sem associarmos as etapas elaboradas neste processo. Ao buscarmos o sempre eficaz Gengibre contra torpor digestivo, por exemplo, estamos aplicando a intensa concentração de Energia Solar presente nesta raíz para conter “o frio e o escuro” produzidos pela indigestão. Em outro momento, no entanto, precisaremos do frescor de uma Alfazema para amenizar a abrasividade de um fogo selvagem. Esse é o reconhecimento do Sol e da Lua nas plantas.

No atual momento do nosso pensamento científico, identificar dentro de cada planta princípios ativos responsáveis por efeitos terapêuticos novamente nos seduz mas na visão de sábios antigos, olhar para uma paisagem não era diferente de contemplar o céu pois a vastidão natural da vegetação era um ato contínuo da força celeste. Encantador é observar, ainda, que o uso de plantas associadas aos planetas não é uma proposta livre ou simplesmente romântica mas sim uma metodologia de leitura classificatória organizando sobre o efeito clínico das plantas partindo de uma referência maior. A cura da consciência.

No paralelo astrologia indiana e medicina ayurvédica, cada planeta estaria associado com os humores corporais (os chamados vata, pitta e kapha) e com os tecidos formadores do nosso corpo. Isso cria um campo de incrível aplicação e abrangência por estruturar uma terapia que atenderia, de forma central, à reparos estruturais regenerando tecidos e órgãos enquanto que de modo sistêmico reestabeleceria uma ordem fisiológica entre os humores.

Esse sistema de fitoterapia planetária ainda propõe algo literalmente superior e de inevitável fascínio: a cura cósmica ou kármica. Assimilando a visão astrológica de uma interconexão entre todas as coisas na natureza, o uso de plantas medicinais enquadradas de acordo com esse modelo iria automaticamente promover mudanças numa dimensão maior e mais profunda da existência.

Usando a terminologia da literatura clássica indiana, além do nosso corpo mais denso ou grosseiro, nossa unidade biológica ainda é formada por camadas energéticas e sutis, os chamados “koshas” que formam nossa anatomia sutil. Esses koshas registram nossa jornada cósmica e nossas experiências kármicas na trajetória da alma. São envoltórios formados por substâncias refinadas e que estão atrelados à nossa consciência e muitas vezes chamados também de corpos astrais pela sintonia e afinidade com a frequência da luz num entendimento quântico.

Assim, num modelo de atuação semelhante ao unicista dentro da homeopatia que busca uma substância ideal, a fitoterapia organizada pela referência planetária produz um alinhamento terapêutico entre equilíbrio biológico e consciência promovendo consequentemente uma percepção espiritual mais clara por selecionar e empregar uma planta que atue em nossos corpos ao mesmo tempo.

Diante das várias formas de apresentação e uso da fitoterapia, o campo dos óleos essenciais e aromaterapia ganha um destaque prático na proposta do esquema planetário. Os óleos essenciais foram considerados elementos vitais ou “espirituais” das plantas, como alguns alquimistas expressavam, mas principalmente são substância que preservam máxima integridade química formando um bouquet de notas ativas no campo da cura. A aromaterapia usa um canal de fácil assimilação pela consciência por lidarmos com elementos, igualmente delicados e voláteis. Essa afinidade do aroma com a mente, explicaria a notória aplicação dos óleos essenciais sobre estados psicológicos. A concentração de princípios ativos acionam sinapses provocando desde mudanças de humor a estados alterados de consciência em diferentes níveis.

Talvez, a astrologia tenha sido o primeiro sistema na história do homem dando origem a compêndios de fitoterapia, dispondo sobre a relação química e metafísica entre plantas, homem e o céu. Organizar e inspirar a compilação de uma linguagem eficaz que promova um diálogo entre as plantas nativas, seus óleos essenciais e a perfeita classificação astrológica é a proposta deste trabalho que resgata a original tradição entre astrologia e ayurveda.

 

Prof. Arjun Das

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